Arte
Não sei ao certo com que idade fui pela primeira vez ao teatro, até porque minha mãe conta que ainda grávida, ialevar minhas irmãs à espetáculos infantis da época. Já que os médicos afirmam que os bebês ouvem e assimilam bastante informações ainda na barriga da mãe, possivelmente isso me influenciou de forma positiva. Entre as primeiras montagens, me recordo de trexos e canções de "O ratinho que queria ser marinheiro" (mera coincidência, afinal, acabei invertendo os papéis, e o Marinheiro aqui se passou por rato, diversas vezes). Na ocasião eu devia ter uns 2 anos, e vi diversas vezes. Depois vieram musicais, peças como "O menino maluquinho", "Hipopocaré", "O Galo Jackson"... De todos ensinamentos e costumes passados pela minha mãe, certamente teatro e música foram os que mais me identifiquei e sou mais grato à ela. Passado a minha fase mais infantil, passei alguns anos afastado dos teatros, até que por acaso (ou não) do destino, fui levado ao outro lado do teatro, e comecei a estudar essa bela arte. Tudo começou da seguinte forma: _Tinha lá eu os meus 11 anos, na 6ª série do ensino fundamental, em plena sexta-feira, quando a coordenadora do tradicional Liceu de Artes e Ofícios de Pernambuco (colégio esse pertencente à Universidade Católica - UNICAP - que eu viria estudar anos depois, no curso de Contabilidade - técnico, e superior de Ciências da Computação. Esse último, não concluí) entrou na sala e mandou que os alunos pertencentes ao grupo de teatro se dirigissem ao auditório da sala, isso logo após a volta do intervalo, e um pequeno grupo de alunos saíam e não retornavam, e lá ficávamos (eu e o restante da turma), por duas aulas seguidas de matemática, com uma professora que não ajudava em nada o decorrer da aula. Isso se repetiu por várias sextas-feiras, até que não resisti, e perguntei: _O que faço para entrar no grupo de teatro? (Afinal, nada podia ser pior que duas aulas de matemática, justamente no final da sexta à tarde) Apenas me indicaram a seguir o grupo, e lá eu teria maiores informações... O diretor do grupo de teatro, o grande ator, escritor, diretor e professor Carlos Varela, havia trabalhado com o meu pai (que també é funcionário da UNICAP) anos atrás, e me recebeu com toda paciência. No começo fiquei um pouco tímido, até porque sempre fui tímido, mas as aulas de teatro e as montagens propostas pelo grupo, cada vez se tornaram mais fascinantes. Se passaram 3 anos desde a primeira participação, e já estávamos viajando pelo estado com montagens como "O auto da compadecida", "O menino Jesus", "Os excluídos", até que fomos capa do tradicional Diário de Pernambuco (jornal em circulação mais antigo da América Latina), onde a primeira dama da época, Madalena Arraes (viúva do então Governador Miguel Arraes) nos ofereceu um prêmio, após encenarmos pra ela, e a nota do jornal saiu mais ou menos assim: "_Tem certeza que eles não são profissionais? Indagava a primeira-dama, Madalena Arraes, sobre o grupo de teatro do Liceu de Artes e Ofícios" Isso foi nosso auge. Também me recordo de outra apresentação, dessa vez no antigo Colégio Nóbrega, onde pela primeira vez, meus pais figuravam na platéia. Um misto de nervosismo e timidez foi o motivo que só me deixou me aproximar deles após o término do espetáculo.
Como nada é para sempre, a vida me chamou à responsabilidade, e comecei a estagiar em um escritório de Contabilidade, o que me tirou de uma só vez do grupo de teatro e do Conservatório Pernambucano de Música - Centro de Criatividade Musical, onde eu estudava teoria e prática de música e bateria, além de aulas particulares de teclado e violão.
A magia do teatro nunca me saiu da mente, e como espectador, voltei a circular pelos teatros pernambucanos. Do humor escrachado de "Cinderela, a história que sua mãe não contou", com texto de Henrique Celibi e direção de Jeison Wallace, que há 15 anos encara o personagem suburbano e subversivo, e elenco da Trupe do Barulho. Não sei se o melhor foi assistir à todas montagens, com substituição de atores por diversos motivos, e em cada uma delas, rir até o queixo doer, ou tê-los como amigos da família, amizades essas que mantemos até os dias de hoje, além do eterno príncipe, o saudoso Edilson Rygaard. Vieram outras peças do estilo, como "Deu a louca na história que sua mãe não contou", "A casa de Bernada e Alba", "A carouchinha", As criadas mal-criadas", e muitas outras. Todas com o mais escrachado e despudorado humor pernambucano. Recordo-me também do "Meu querido mundo", de Miguel Falabela, que retrata o cotidiano de um casal falido, em um prédio abandonado e condenado pela defesa civil, em pleno reveillon; algumas montagens e laboratório do TAP - Teatro de Amadores de Pernambuco, enfim, aos 25 anos de idade afirmo que cada peça (citada aqui ou não) me fez viajar no imaginário e fantástico mundo do teatro, que assim como a leitura, nos leva por um caminho nunca percorrido, e cheio de fábulas, piadas, lições e ensinamentos. Não posso deixar de citar o grande humorista Zé Lezim (Nairon), com suas diversas apresentações solo ou em parceria com o já mencionado Cinderela (Jeison Wallace), que em diversas ocasiões nos fizeram esquecer de todos os problemas, e muitas vezes nos fazendo rir dos próprios problemas, com suas frases e comparações pra lá de exdrúxulas. Imagina unir as duas artes que mais admiro? Essa sensação eu tive ontem, onde me senti transportado à decada de 80 e início dos anos 90, onde viveu pra mim, o maior poeta do rock brasileiro e um dos maiores nomes da nossa música: Renato Russo. Tudo que descrevi aqui, poderia ser traçado em linha paralela à Legião Urbana, pois do teatro ao trabalho, sempre fui um legionário, como eram chamados os fãs. Filho mais novo de 6 irmãos (sendo os 3 mais velhos só por parte de pai), desde os 4 ou 5 anos de idade, fui apresentado aquelas letras gigantescas, muitas vezes sem refrão, mas que contagiava à todos, não saía das rádios FMs nem da cabeça dos jovens, e meus irmãos não eram diferentes, e por volta de 1987, todos se orgulhavam de ver uma criança com seus 5 anos de idade, cantar uma música cuja letra não se repetia em um mínimo refrão sequer, e durava mais de nove minutos. Aí nascia mais um fã da Legião. Entre coleção de discos, K-7 e o recém-lançado e revolucionário CD, colecionei todos os discos da banda, e acompanhei pro jornais, revistas, TV e todos veículos disponíveis a trajetória daquela banda que pra mim era um verdadeiro espelho, até a fatídica manhã de 11/10/96, quando falecia o Renato Manfredinni Jr, o nosso Renato Russo. Confesso que me causou bastante impacto, uma vez que toda minha inspiração para tocar, cantar, interpretar e estudar música, vinha da Legião. Era um verdadeiro desafio aprender e decorar todos os solos. O que seria de nós? Com 14 anos, eu perdia a maior referência musical e artística que eu tinha. De certa forma, ali nasceu o escritor Marinheiro, e minhas primeiras linhas surgiram de um texto onde eu buscava homenagear o ícone de gerações, o poeta, compositor, cantor e multi-instrumentista Renato Russo. Texto esse que teve boa aceitação de alguns veículos, e tive o prazer de receber excelentes críticas e citações de pessoas da área, o que foi fundamental pra minha formação. Em cerca de 2 horas, na noite de ontem, fui levado à essa época, do fanatismo pela Legião, até meus primeiros rabiscos, e em meio à essa verdadeira viagem, só lamento pelo público, pois um espetáculo desse nível, com a impecável performance de Bruce Gomlevsky (o mesmo que fez o especial da Globo), e direção de Mauro Mendonça Filho, a montagem é algo obrigatório para todos os fãs de Renato ou da Legião, assim como para os admiradores de uma boa música ou teatro, para quem viveu ou deseja saber mais sobre os anos 80, ou apenas para quem deseja um programa de excelente bom gosto, uma pena que o público da primeira noite não ocupou nem 40% dos mais de 2700 lugares do teatro Guararapes, mas certamente quem estave ali foi privilegiado.
Entre memórias, sonhos, lembranças e aspirações, eu vou vivendo. Em meios a acordes desafinados, encenações amadoras e linhas tortas. Seguindo o perfil do Trovador Solitário, "Na solidão eu me perco, sozinho eu me acho"
Escrito por J. Marinheiro Filho às 12h48
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