Iemanjá
Conheço André Rio há pelo menos 10 anos. Já havia trabalhado para e com ele em algumas oportunidades, mas nada comparado a dormir e acordar no mesmo hotel todos os dias, almoçar, jantar, beber e beber diariamente. A aproximação se deu a partir do momento que resolvi ir com eles para a turnê da Europa, e de lá, seguir minha viagem de turismo quando eles retornariam ao Brasil. E assim o fizemos. O almoço com a diretoria da Rede Globo e do Vídeo Show foi o "bater do martelo" da viagem. Dali em diante era só comprar passagens, resolver alguns detalhes e esperar o dia da partida. Já algum tempo depois, lá pelo décimo dia da viagem (ou mais) estávamos no carro saindo de Milão com destino Sirmione, também na Itália, e o assessor de imprensa havia colocado o CD "Na Levada da Embolada" para tocar. Dividindo minha atenção entre a auto estrada e as informações que o GPS me passava comecei a ouvir algumas músicas bastante conhecidas e outras inéditas para mim até o momento. Uma me chamou a atenção em especial. Para quem não sabe, André Rio é um dos maiores compositores pernambucanos de sua geração. De temas de carnaval da Rede Globo a canções da MPB interpretadas por artistas de todo país. Sua música intitulada "Chuva de Sombrinhas" virou um ícone do carnaval pernambucano e, na minha opinião, é o melhor frevo de Capiba pra cá, mas isso é uma outra história... Discretamente, concentrado em minha função momentânea, a direção do carro, tentei decorar a letra da música para depois ouví-la com mais calma. Já em Sirmione, André Rio me pediu que o levasse até o AutoGrill mais próximo. uma vez que eu era o único autorizado a dirigir tal veículo. Desci antes de todos e, já no carro, coloquei o CD já na faixa escolhida. Pouco mais de um minuto depois ele já abria a porta do carro, olhava pra mim e dizia: _Bicho, não escute isso não. Esquece essa mulher. Vou te ensinar umas coisas. Eu fiquei meio que sem saber o que falar, e nem tentei argumentar. A primeira coisa que me veio a cabeça era de onde ele teria tirado a ideia de que eu estava escutando aquela canção pensando em alguém, mas isso era bastante simples de se responder: _Primeiro que ele escreveu, então sabe bem o que quis dizer e, segundo que ele escreve o que sente, então passou por algo semelhante no momento da composição. Ele continuou: _Deixa comigo que eu sou campeão em esquecer e ser esquecido. A gente vai dar um jeito nisso! Bem, se resolveu ou não isso não vem ao caso. As dicas foram bastante utéis e algumas atitudes dele realmente me ajudaram um bocado. Não poderia encerrar sem publicar a letra em questão, e quem quiser o mp3 é só mandar um e-mail para jmarinheiro@conexaope.com.br com o título "Iemanjá". Iemanjá (André Rio)
O certo é que não tá certo ficar assim O verde mar dos seus olhos tão longe de mim O certo é que não tá certo ficar assim O pôr do teu sol, sem meu ombro pra dormir Se eu te fiz partir Fora de hora Volta que a vida sara as feridas que há em ti Não é hora de ir De ir embora Ouve o cantar do meu mar amar chamando por ti Iemanjá, rainha das águas, rainha do mar Traz meu amor pra mim Traz meu amor de volta pra cá Iemanjá, rainha das águas, rainha do mar Traz meu amor pra mim Traz meu amor de volta pra cá O certo é que tá errado você sem mim Nas cartas, nos búzios, nos astros a gente ainda tá afim O certo é que você nunca saiu de mim E o tempo é quem vai te mostrar o teu lugar é aqui É raro um amor assim Não se demora Vem tá na hora Você merece ser feliz Me dá teu amor pra mim Que eu tomo conta Que o faz de conta vira verdade e não tem mais fim Iemanjá, rainha das águas, rainha do mar Traz meu amor pra mim Traz meu amor de volta pra cá Iemanjá, rainha das águas, rainha do mar Traz meu amor pra mim Traz meu amor de volta pra cá
Escrito por J. Marinheiro Filho às 08h33
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4 países, 16 cidades e muita história pra contar
Um mês viajando, 4 países e 16 cidades percorridas, lugares, pessoas, comidas, temperos, bebidas, essências, clima, emoções e sensações descobertas. Muita história pra contar. Às vésperas de mais uma viagem, antes mesmo de assimilar tudo vivido na anterior, algo me vem em mente. Dos tempos de capoeira lembro-me, além de alguns movimentos, algumas amizades e do cheiro da maconha no ar, de uma canção que dizia: "_Eu não sou daqui 'marinheiro só', eu não tenho amor 'marinheiro só'..." E eu realmente não sou daqui. Mas também não sou de lá, eu não sou de lugar nenhum. Nasci pra viver, pra viajar, seja pelo mundo ou parado no mesmo lugar. O mundo está aí aberto à todos e como dizia o poeta: Navegar é preciso. Lisboa, Porto, Sesimbra, Milano, Torino, Roma, Veneza, Desenzano, Lonato del Garda, Bergamo, Sirmione, Montreux, Genéve, Lausanna, Vale D'Aosta, Grand Saint Bernard (Portugal, Itália, Suíça e França). A viagem duraria apenas 15 dias e incluía 5 cidades, mas a autorização para dirigir pela Europa, o carro com GPS à disposição e a vontade de conhecer sempre mais me fizeram aumentar a duração e o percusso. Algumas trocas na passagem da volta e outros euros dedicados à alimentação e turismo realmente valeram a pena. Chegando no Porto, Portugal, com Nelsinho, quem nos espera na estação de trem é Paulo Pimpão, aamigo de longas datas, músico, que reside há 6 anos em Portugal com a esposa Marília. A primeira frase dele resume minha viagem toda: "_Olha só onde os caras vieram parar!" É, rodei um bocado para chegar lá mesmo. E nem deveria ter ido. Tudo começou quando ao chegar em Portugal, sendo recebido pelo casal Patrícia e Rui (ele, Português, ela, amiga da família de muitos anos) fui levado para fazer um city tour completo por Lisboa. Do Castelo de São Jorge aos pastéis de Belém. Do monumento às Caravelas a casa onde nasceu Santo Antônio. Chiado, rio Tejo, não faltou nada. à noite fomos até a praia de Sesimbra, uma praia quase particular com uma estrutura sensacional e uma vista privilegiada. Naquela noite teria um desfile de escolas de samba (portuguesas) e o Nelsinho iria puxar o enredo no cavaco, imperdível. Após o jantar e o desfile terminar, ficamos na praia que faz frio (o único lugar que senti frio na Europa) tomamos algumas imperiais (cerveja local) e mais uma vez o dia amanhece sob nossos olhos. No dia seguinte retornamos à Lisboa e meio que do nada resolvemos ir até o Porto, de trem. Patrícia e Rui se informam sobre os horários de partida e chegada, telefonam para o Paulo e corremos para estação. Dali em diante foi só alegria, como tudo em Portugal. Pimpão nos leva a um city tour pelo Porto e depois vamos pra casa jantar. Comemos, trocamos de roupa e seguimos junto com Marília até um forró brasileiro em Portugal. O mundo é um ovo de codorna e encontro conhecidos por lá. É mole? Um dançarino da saia rodada, um músico antigo da banda pinguim e outras carinhas bem brasileiras. A música que toca é fuleragem e portugueses são em menor número. Domingo é folga das "moças que trabalham à noite" e grande parte delas, brasileiras, resolvem ir curtir o tempo livre naquele forró. Resumindo: puta é bóia... As imperiais (aqui custando 1 euro. E lembrar que pagamos 9 euros em um chopp em Milão) são nossa companhia por toda a noite e saímos de lá perto das 6 da manhã. Descansamos duas horas e partimos pra mais turismo, até porque as 16h52 o trem partiria para Lisboa e tínhamos pouco tempo. Pimpão é um excelente guia luso-brasileiro. Luso porque conhece tudo e brasileiro porque não respeita as leis do trânsito nem horários e graça a sua "agilidade" conseguimos visitar e tirar foto de tudo em tempo recorde. Ainda paramos no shopping onde compro algumas lembranças para familiares próximos, amigos e para mim, uma mochila gigante que será minha companheira das próximas viagens. Voltamos para Lisboa onde irei passar minha última noite na Europa. A viagem de três horas no trem parece passar rápido. Após um rápido banho um jantar de despedida me espera. E que jantar. Patrícia e a mãe, D. Jeane, capricharam pra valer. E quem disse que eu queria voltar? Mas navegar é preciso. Jantamos e vamos a um último passeio pela noite de Lisboa. A primeira parada é a galeria onde está a loja do jogador Cristiano Ronaldo. Depois vamos até o Parque das Nações e enfrentamos o frio do verão. Ainda passamos no Cassino, incrível por sinal e terminamos a noite no Shopping (que aqui fecha somente à meia-noite) onde compro alguns vinhos do porto e garanto um bom presente aos que ainda iria escolher. Chegando em casa faço uma foto do Parque das Nações à noite e vou arrumar a mala. Durmo antes das 2 da manhã porque o dia seguinte seria bem curto. E foi. Acordamos, tomamos café e vou com Nelsinho até o Oceanário de Lisboa, o segundo maior do mundo. No caminho paramos para tirar algumas fotos no Shopping Vasco da Gama e em alguns pontos turísticos. O parque realmente impressiona pela estrutura e diversidade, mas no geral só tem peixe. E eu nem como peixe. Uma hora e meia é mais que suficiente para visitar os três pisos e vários aquários. Lá dentro é proibido tirar foto com flash o que nos deixa um pouco frustrados, mas vamos em frente. Um passeio no teleférico e mais uma ida ao Shopping (lê-se mais compras) encerra o passeio. Chegamos em casa, banho e almoço. Um bom vinho para deixar o gosto e o brilho de uma viagem inesquecível e Patrícia e Rui, atenciosos como sempre, me levam ao aeroporto e ainda cuidam da minha bagagem de mão na hora do check in. Vou embarcar com quase 1 hora e meia de antecedência e ainda assim entro no avião em cima da hora devido a enorme quantidades de vôos pro Brasil que saía no mesmo horário (Lisboa Recife, Lisboa Fortaleza e Lisboa Natal). Ainda na fila para carimbar o passaporte na saída conheço duas garotas de Natal e por alguns momentos lamento não ir no mesmo avião que elas. Ah, Natal... Faço figa para a cadeira do meu lado ir vazia ou com alguma pessoa interessante para tornar ainda melhor minha volta ao Brasil. Ao chegar no meu assento percebo que uma garota será minha companhia nas próximas 8 horas. Dou um sorriso cínico e a cumprimento. Ela sorri e fala um "oi" cheio de sotaque. Definitivamente não era brasileira. Ela está lendo uma publicação em francês. Primeira dica sobre sua origem. O piloto anuncia que iremos decolar e ela se ajeita para tentar dormir. Gentilmente ofereço meu travesseiro para que ela use juntamente com o dela e fique mais confortável, ela sorri mais uma vez e agradece. O avião decola e ela cochila. Após a aeronave estabilizar a aeromoça passa distribuindo os fones de ouvido e o cardápio do vôo. Guardo os dela e entrego na primeira oportunidade. Dali em diante o assunto flui. Ela realmente é francesa, tem 20 anos, vem ao Brasil pela primeira vez e vai estudar durante um ano na Federal, fazendo Jornalismo. Na França ela estuda Ciências Políticas e me aproveito de ser conhecedor de ambos os temas oferecendo-me para dar todo suporte necessário. Coincidentemente e para dar mais veracidade ao que falo, o livro que trago para ler no vôo tem como tema a política, escrito em letras grandes no rodapé da capa. A abordagem é feita com sucesso. Quando o comissário passa distribuindo formulários sobre declaração de bens (para a Receita Federal) e de saúde (para controle da gripe suína - H1N1) levanto para pegar uma caneta na bagagem de mão e acabo chamando atenção de alguém que está do outro lado do avião, umas 5 fileiras atrás. Logo após me sentar escuto uma voz feminina e uma mão pegar no meu braço e dizer: _Marinheiro? Não demorei nem um segundo para me virar, mas esses milésimos foram o bastante para eu imaginar tanta coisa... A quem pertencia aquela voz? A Juliana. Uma grande amiga, por assim dizer, da época da faculdade de... Jornalismo, pimba! Tudo combinava. Vou até o assento dela e conversamos um pouco para tentar matar a saudade. Éramos muito grudados. Bebíamos todos os dias no intervalo e fizesse chuva ou sol todo dia depois da aula eu a deixava em casa. Volta ou outra a visitava nos finais de semana, mas o trabalho e o meu casamento havia nos afastado um pouco, motivos esses que não existiam mais, portanto agora poderíamos retomar aquela grande amizade. Ela estava voltando da Espanha, onde tinha ido passar férias na casa da mãe. Conversamos por alguns minutos e volto para meu lugar. A viagem continua, escolho um filme para assistir com minha colega de poltrona, rimos um bocado. Depois vamos ler juntos um livro com expressões em português (do Brasil) e tiro algumas dúvidas dela. Falamos sobre música, alimentação, cultura, turismo, minha vida, meu trabalho, a vida dela e o que espera desse próximo ano. Literalmente essas oito horas voam e é hora de pousar. Auxilio ela a preencherr ambos formulários e a organizar a bagagem de mão, trocamos gentilezas e carinhos por toda viagem. Mais que companheiros de viagem parecemos um verdadeiro casal. E por que não? Pousamos, cada um segue uma fila na imigração e nos encontramos depois já pegando a bagagem. Nos despedimos e os telefones e e-mails trocados são a certeza de que esse intercâmbio entre a França e o Brasil não acabaria ali.
Escrito por J. Marinheiro Filho às 10h56
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